Eduardo Luiz Barbosa
Ativista

Ativista
Eduardo Luiz Barbosa nasceu em 2 de março de 1961, em Chavantes, interior de São Paulo, filho de Oswaldo Barbosa e Olga Bassit Barbosa. Caçula de quatro irmãos — Oswaldo Luiz, Ricardo Luiz e Zaira — cresceu em uma família marcada pela religiosidade e por uma educação fortemente guiada pelos valores católicos. A infância e a adolescência de Eduardo foram moldadas pelos movimentos eclesiais de base, especialmente pela Renovação Carismática, espaços onde aprendeu cedo sobre solidariedade, comunidade e a força do cuidado coletivo — elementos que, mais tarde, viriam a orientar toda a sua vida pública e ativista.
Em 1978 concluiu o ensino médio e ingressou no Seminário Sagrado Coração de Jesus, em Marília, buscando formação sacerdotal. Paralelamente, iniciou os estudos de Filosofia na Universidade Estadual Paulista (UNESP) e, posteriormente, graduou-se pela FAI – Faculdades Associadas do Ipiranga, já em São Paulo. Ao perceber que sua vocação não estava no sacerdócio, Eduardo deixou o seminário, mas nunca abandonou o compromisso ético e humano que aprendeu ali.
Em 1983 mudou-se definitivamente para a capital paulista, onde reiniciou sua vida profissional. Trabalhou em instituição bancária e no Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO), até que, em 1986, encontrou uma de suas grandes vocações: a educação. Tornou-se professor da rede estadual de São Paulo, atuando na zona leste da capital até 2004. Lecionou História — sua disciplina por direito —, mas também Filosofia e Sociologia. Na escola, foi além da sala de aula: presidiu a Associação de Pais e Mestres, criou projetos culturais, esportivos e comunitários, e foi referência humanista para gerações de estudantes.
Ainda nos anos 1980, iniciou sua aproximação com a saúde pública. Promoveu oficinas de sexualidade, prevenção das ISTs e HIV/aids, conduziu debates sobre cidadania e produziu boletins informativos — iniciativas pioneiras em um período de silêncio e desinformação sobre a epidemia que avançava no Brasil.
Em 1994, recebeu o diagnóstico positivo para HIV. O peso da sorofobia e da heteronormatividade da época o havia empurrado, como a muitos homens gays, para a invisibilidade e para uma vida dividida entre o que se podia revelar e o que era preciso esconder. O diagnóstico, apesar da dor, foi também um divisor de águas. Eduardo decidiu assumir sua sorologia publicamente, rompendo barreiras pessoais e coletivas, e transformando sua trajetória em luta. A partir daí, o HIV não seria apenas um marcador biológico, mas um motor de transformação social.
Ingressou no grupo de usuários vivendo com HIV/aids do Hospital do Servidor Público de São Paulo e se aproximou do Grupo de Incentivo à Vida (GIV). Tornou-se uma das lideranças mais importantes da instituição: presidiu o Grupo, integrou a diretoria, coordenou projetos, acolheu pessoas recém-diagnosticadas, formou ativistas e lutou incansavelmente pela dignidade de quem vivia com HIV em um dos períodos mais violentos da epidemia.
Ao lado de tantas outras pessoas vivendo com HIV/aids, Eduardo reinventou sua vida dentro do ativismo: celebrou vitórias, enfrentou perdas devastadoras — tantas mortes de amigos marcadas pelo estigma — e tornou-se presença constante em seminários, conferências, oficinas e espaços de formulação de políticas públicas. Seu nome passou a ser reconhecido nacionalmente como articulador, mobilizador e defensor intransigente dos direitos humanos.
Participou da fundação da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS (RNP+ Brasil) e do Fórum de ONG/Aids do Estado de São Paulo, onde exerceu papel de destaque, presidindo o Fórum entre 2001 e 2004. Naquele mesmo ano, foi convidado a integrar o atual Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA) do Ministério da Saúde.
Iniciou no Departamento de Aids como responsável adjunto e depois tornou-se coordenador da Unidade de Articulação com Sociedade Civil e Direitos Humanos (SCDH). Em 2007, assumiu a função de diretor-adjunto do Departamento. Dentro do governo, Eduardo atuou como ponte — alguém capaz de dialogar com movimentos sociais, gestores, usuários e diferentes setores da sociedade em busca de políticas justas, efetivas e baseadas em direitos.
Teve participação essencial nas discussões e articulações pelo acesso universal aos antirretrovirais, incluindo um dos marcos da política brasileira de HIV/aids: a efetivação do licenciamento compulsório do Efavirenz, garantindo sua produção nacional e ampliando o acesso ao tratamento.
Seu campo de atuação sempre se concentrou em fortalecer a sociedade civil, combater preconceitos, ampliar estratégias de prevenção e atuar junto às populações mais vulneráveis. Lutou por assistência qualificada, respeito, cidadania e políticas públicas que enxergassem pessoas — não estatísticas.
Eduardo se tornou referência nacional na defesa dos direitos de pessoas vivendo com HIV/aids. Respeitado por sua firmeza, empatia, capacidade de articulação e pela compreensão profunda de que a luta contra a epidemia é também luta contra a desigualdade, a violência e o estigma.
Nos últimos anos, atuou como presidente do Grupo Pela Vidda/SP, coordenou o Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids (Mopaids) e atuou como Conselheiro Político da Articulação Nacional de Luta Contra a Aids (ANAIDS). Também gerenciou o Centro de Referência LGBTI+ Brunna Valin, um serviço voltado à população LGBTI+ na cidade de São Paulo, fortalecendo ações de saúde integral, defesa de direitos, acolhimento e visibilidade para pessoas trans, travestis, gays e lésbicas. Sua atuação extrapola o HIV: é uma força ativa na garantia de cidadania e dignidade para todas as pessoas.
O que move toda essa caminhada? Eduardo responde de forma clara: o desejo profundo de construir uma sociedade onde sorofobia, homofobia, lesbofobia e transfobia deixem de existir; onde cada pessoa possa exercer sua cidadania plenamente; onde a assistência em saúde seja de qualidade, universal e acolhedora; onde a prevenção chegue aos mais vulneráveis e invisibilizados; onde a solidariedade seja princípio e prática; onde o protagonismo das pessoas vivendo com HIV seja reconhecido como pilar fundamental na construção de políticas públicas.
E, acima de tudo, a crença incansável nos avanços científicos — e na esperança — que levem, um dia, à cura da aids.
Eduardo Luiz Barbosa não é apenas um nome na história do movimento. Ele é parte da base que sustenta, inspira e empurra a luta para frente. É uma vida dedicada ao cuidado, à resistência e à defesa intransigente da dignidade humana. Seu legado segue pulsando em cada encontro, cada conferência, cada política pública, cada pessoa acolhida e cada vida transformada pela força da luta coletiva.
Sua história é memória, é presente e é futuro — exatamente como deve ser o Memorial da Resistência.