Irmã Sarah Helena Regan
Liderança religiosa e comunitária

Liderança religiosa e comunitária
A história da Irmã Sarah Helena Regan confunde-se com a própria história da solidariedade, da resistência e da defesa da vida em meio a uma das mais duras epidemias da contemporaneidade. Missionária irlandesa da Congregação das Irmãs de São Luís, ela chegou ao Brasil no início da década de 1990 movida por um profundo compromisso com sua vocação missionária e com o cuidado aos mais vulneráveis. Ao estabelecer-se na periferia da cidade de São Paulo, na comunidade Recanto da Alegria, no bairro de Perus, encontrou o chamado que marcaria definitivamente sua trajetória.
Enquanto atuava no Projeto Esperança, em São Miguel Paulista, acompanhando pessoas vivendo com HIV/Aids, Irmã Helena percebeu que, muito perto de sua própria casa, a mesma realidade de sofrimento, abandono e exclusão se repetia. Deparava-se com pessoas isoladas por suas famílias, muitas vezes relegadas a espaços improvisados dentro das próprias casas, privadas de cuidados básicos, dignidade e esperança. Sensibilizada por essa dor silenciosa, passou a visitá-las, oferecendo alimento, higiene, cuidado e presença. Foi nesse contato direto com a vulnerabilidade humana que nasceu o sonho de construir uma resposta concreta àquela realidade.
Movida por inquietação e fé, reuniu as comunidades católicas da região de Perus e, em 1º de dezembro de 1996, promoveu uma capacitação comunitária sobre HIV/Aids. A iniciativa representou o primeiro passo na construção de um caminho coletivo de enfrentamento à epidemia, marcado pelo conhecimento, pela solidariedade e pelo compromisso com a vida. Surgia então o Projeto Bem-Me-Quer, simbolizado por uma margarida que, mesmo com uma pétala caída, permanecia viva graças ao cuidado de quem se recusava a deixá-la morrer — imagem acompanhada do laço vermelho, símbolo universal da luta contra a aids.
No primeiro ano, o projeto acompanhava apenas seis famílias da região. A Paróquia Santa Rosa de Lima cedeu uma pequena casa de três cômodos que abrigaria a iniciativa por uma década. Naquele período, ainda sem tratamento eficaz e cercada por forte preconceito, a aids condenava muitos ao abandono. Os voluntários realizavam visitas domiciliares, ofereciam alimentos, orientavam sobre medicamentos e cuidados básicos, mas, sobretudo, levavam amor, acolhimento e palavras de esperança — gestos que devolviam dignidade a quem havia sido invisibilizado.
A resposta solidária rapidamente se expandiu. Hospitais, postos de saúde e centros de referência passaram a encaminhar novos casos, e o número de famílias atendidas cresceu de forma expressiva. Em 1999, quase duzentas famílias já eram acompanhadas, exigindo a mobilização permanente da comunidade para garantir a continuidade das ações. Bazares, bingos, feijoadas e eventos beneficentes tornaram-se estratégias de sustentação do projeto.
Irmã Helena também assumiu pessoalmente a responsabilidade de garantir os recursos necessários. Todos os anos retornava a Dublin, na Irlanda, percorrendo paróquias e organizações católicas europeias em busca de apoio para manter o trabalho no Brasil. Durante mais de uma década, o projeto sobreviveu exclusivamente dessas doações, recebendo financiamento público apenas em 2007. Essa trajetória revela a dimensão de sua determinação, coragem e compromisso com a sustentabilidade da missão.
Desde o início, o trabalho articulou cuidado direto e ativismo social. Além das visitas domiciliares e do acompanhamento de pacientes internados no Hospital Geral de Taipas, Irmã Helena atuou intensamente na defesa de políticas públicas e na avaliação dos serviços de saúde destinados às pessoas vivendo com HIV/Aids, participando do FOAESP, de conselhos de saúde e de espaços de controle social. Para ela, cuidar significava também lutar por direitos, justiça e dignidade.
Com o passar dos anos, as atividades se ampliaram, incluindo cursos profissionalizantes, ações de fortalecimento da autoestima e iniciativas de formação. Em 2006, graças a um projeto elaborado por Irmã Helena e parceiros, foram obtidos recursos da Agência Irlandesa de Fomento à Missão para a aquisição da sede própria, equipada no ano seguinte com apoio de outras instituições. Esse momento marcou um importante florescimento institucional, fortalecendo a organização técnica e ampliando sua capacidade de atuação.
Em 2011, a comunidade foi profundamente abalada pelo falecimento de Irmã Helena. Sua partida deixou um vazio imenso, um tempo de dor e incerteza diante da ausência daquela que sempre fora guia e referência. Para todos, ela era e permanece um farol a iluminar o caminho, inspiração permanente de coragem, compaixão e compromisso.
Diante do luto, a decisão foi unânime: seu legado não poderia ser interrompido. A obra que ela iniciou continuaria viva. Mesmo sem sua presença física, o Projeto Bem-Me-Quer não apenas se manteve, como ampliou suas ações, reafirmando diariamente o compromisso com a defesa da saúde, dos direitos humanos e da dignidade das pessoas vivendo com HIV/Aids.
A trajetória de Irmã Helena permanece como símbolo de resistência, fé e solidariedade transformadora — uma história que integra a memória coletiva do MOPAIDS e inspira, ainda hoje, a continuidade da luta por uma sociedade mais justa, humana e livre do estigma.