Jorge Eduardo Reyes Rodriguez
Ativista

Ativista
Amor ao próximo deveria ser o seu sobrenome. Um homem justo, que dedicou integralmente a sua vida à luta contra aids no Brasil e no mundo. Ele era do bastidor, colocava a mão na massa e conhecia com profundidade cada assistido do Instituto Vida Nova, ONG que tivemos o prazer de fundar nos anos 2000, para acolher pessoas carentes vivendo com HIV.
Sempre com uma palavra acolhedora e solidária, recebia com amor todos que chegavam na instituição, inclusive as pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Jorge Eduardo Reyes Rodriguez era literalmente o coração da instituição e eu, a razão. Mas nossa jornada antecede a ONG, fomos parceiros de vida e de alma por mais de 34 anos. Não costumo dizer que a aids teve méritos em minha vida, mas posso afirmar que ela me aproximou de pessoas que amo muito e vou amar eternamente, como o Jorge. Com muita cumplicidade e simplicidade, nos entendíamos pelo olhar.
Sim, a aids foi um dos temas centrais de nossas conversas, infelizmente não conseguimos até hoje a cura, mas o nosso legado permanece vivo, seguimos transformando vidas e promovendo saúde. Eu digo seguimos porque o Jorge segue vivo em nossos corações. Seu corpo nos deixou em maio de 2023, aos 68 anos, acometido pelo câncer, mas sua alma segue em chamas, guiando o nosso trabalho.
De origem chilena, Jorge foi um verdadeiro brasileiro, com seu molejo, conseguia conquistar e sensibilizar as pessoas. Ele foi soldado da Força Aérea Chilena, mas foi no Brasil que venceu suas maiores batalhas. Saiu do Chile em 1981 e encontrou no Brasil um país acolhedor e seguro para que ele pudesse viver a plenitude da sua orientação sexual.
Infelizmente, o estigma e o preconceito fizeram parte de sua trajetória, inclusive no seio familiar, mas ele nunca perdeu o vínculo afetivo com suas raízes. Era comum ouvir os corredores do Vida Nova música chilena, enfim, Jorge foi responsável por aproximar os nossos usuários da cultura latino-americana. Em setembro, durante a comemoração de seu aniversário, sempre fazia o tradicional almoço chileno para comemorar mais um ano de vida.
Devoto de Nossa Senhora Aparecida, com muita fé e amor, nunca desistiu da vida. Já morou no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, mas foi em São Paulo que construiu uma base sólida e vivenciou seus amores. Como muitos imigrantes, passou por diversas necessidades, já esteve até em situação de rua.
Aos finais de semana, cuidava do jardim e da casa e ainda fazia caminhada no parque; gostava muito de conversar sobre política e conhecia com profundidade a história do Brasil.
Jorge foi e sempre será a nossa referência em acolhimento, solidariedade e escuta ativa. Artista de alma, se envolvia com música, pintura e dança.
Tive o privilégio de ser seu amigo e companheiro. Dentro de nossas limitações, a nossa vida era perfeita. Ele me apoiou em todas as minhas decisões, cuidamos um do outro. Jorge me ensinou a ser família.
Nós, que trabalhamos com populações vulneráveis, a favor da vida com dignidade, sem estigma e sem preconceito, temos ele como referência.
Em São Miguel Paulista sede da ONG, todos o conheciam. Quando o Vida Nova organizava ações e a caminhada solidária do dia Internacional de Luta Contra a Aids, lá ia o Jorge pedir apoio aos parceiros e comerciantes da região. Ele se identificava mais com os bastidores da luta, mas não saía também da linha de frente. Desde a fundação do Instituto Vida Nova, ele acolheu de forma integra e sigilosas milhares de pessoas com HIV/Aids, são milhares de histórias de vidas que levou com ele.
O movimento de aids perdeu um grande ativista. Foi uma honra conviver com você, meu eterno amor. A dor da perda é grande, ainda dói muito, mas um dia ficará apenas a saudade.
“Não deixe o Instituto Vida Nova ir para o brejo, abrace quem você ama, abrace com amor” foram suas últimas palavras.
Obrigado Jorge Eduardo, você foi muito precioso na vida de todos nós.
Américo está presidente do Instituto Vida Nova e companheiro do Jorge.
Tudo começou em 1987 quando descobriu seu diagnóstico HIV positivo, na época buscou apoio a ONG Projeto Esperança de São Miguel Paulista para o seu companheiro Mauro que faleceu em 1988. Após passou a ser voluntário da ONG auxiliando outras pessoas a lutarem pela vida. Em 2000 juntamente com Américo Nunes e outras pessoas fundaram o Instituto Vida Nova no bairro do Itaim Paulista. A partir daí se torna ativista e se envolvendo com o movimento de luta contra a Aids, mas sem deixar sua força maior que era o acolhimento das pessoas que o procurava no Instituto Vida Nova. Os primeiros desafios foram manter a sustentabilidade financeira da instituição e ao mesmo tempo quebrar as diversas barreiras de acesso aos serviços de saúde, moradia em razão do preconceito, discriminação e estigma. Com escuta ativa, e uma calma impressionantes sua maior experiencia foi liderar o Grupo de Convivência que acontecia semanalmente entre pares; ao mesmo tempo que dava esperança de vida a centenas de pessoas, ele se fortalecia com as trocas de experiencias. Também se envolveu nas questões políticas do movimento de luta contra a Aids, com participação no Fórum das ONG Aids do Estado de São Paulo, no Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids e sempre se fazia presente nas manifestações públicas.
De origem chilena, Jorge foi um verdadeiro brasileiro, com seu molejo, conseguia conquistar e sensibilizar as pessoas. Ele foi soldado da Força Aérea Chilena, mas foi no Brasil que venceu suas maiores batalhas. Saiu do Chile em 1981 e encontrou no Brasil um país acolhedor e seguro para que ele pudesse viver a plenitude da sua orientação sexual.
Infelizmente, o estigma e o preconceito fizeram parte de sua trajetória, inclusive no seio familiar, mas ele nunca perdeu o vínculo afetivo com suas raízes. Era comum ouvir os corredores do Vida Nova música chilena, enfim, Jorge foi responsável por aproximar os nossos assistidos da cultura latino-americana. Em setembro, durante a comemoração de seu aniversário, sempre fazia o tradicional almoço chileno para comemorar mais um ano de vida.
O Jorge contribuiu direta e indiretamente para o ativismo com um conjunto de ações e práticas realizadas individual ou coletivamente com o objetivo de promover mudanças comportamentais, sociais, políticas, culturais; lutando por direitos, igualdade, justiça social, entre outros temas.
Suas contribuições de ativista na luta contra a AIDS foram importantes para transformar a resposta nacional à epidemia, resultando em avanços na prevenção, no tratamento, na conscientização de direitos, promovendo a ressignificação e resiliência de milhares de pessoas com HIV/Aids.