José Roberto Pereira (Betinho)
Ativista

Ativista
Há pessoas cuja biografia é feita de feitos. Há outras cuja história é feita de afeto. Mas existem aquelas raras cujas vidas combinam as duas coisas — ação e cuidado — e se transformam num gesto permanente de humanidade. Assim é a trajetória de José Roberto Pereira, o Betinho, um dos grandes nomes da luta contra a aids no Brasil.
Betinho é a prova concreta de que ativismo não é teoria — é convivência. Não é discurso — é responsabilidade. Não é vaidade — é entrega. Sua vida é uma obra contínua de solidariedade.
Sua caminhada no ativismo começa em 1991, aos 34 anos, quando ele chega ao GIV — Grupo de Incentivo à Vida. A sede funcionava na residência de seu fundador, José Roberto Peruzzo, e abrigava um centro de convivência para voluntários. O GIV foi para ele uma escola e um lar. Ali aprendeu com todos, mas especialmente com Peruzzo — o “Zé” — que se tornou amigo, referência e família. Nos anos finais de sua vida, Peruzzo convidou Betinho para morar com ele, e os dois permaneceram lado a lado até o último instante — numa convivência de cuidado, lealdade e amor fraterno.
Entre 1992 e 1993, Betinho morou e trabalhou na Casa de Apoio Brenda Lee. Ali vivia-se o limite da existência — com pacientes terminais de aids, sobretudo mulheres trans abandonadas pela família e pela sociedade. Essa experiência o marcou profundamente. Testemunhar de perto aquela dor moldou sua ética e fortaleceu sua decisão de dedicar-se integralmente a essa luta. A amizade com Brenda Lee foi intensa e transformadora; sua morte trágica se tornou não apenas lembrança — mas compromisso.
Em 1994, junto de Frei Reynaldo, Betinho fundou o CEFRAN — Centro Franciscano de Luta Contra Aids. O centro tornou-se um marco de acolhimento, voltado especialmente às pessoas vivendo com HIV/Aids em situação de pobreza. Em pouco tempo, foi adquirida uma sede de 1000 m², e ali nasceu também o Cefranzinho, voltado ao cuidado de crianças vivendo com HIV/Aids. O CEFRAN atuou por 25 anos e acolheu milhares de pessoas, tornando-se o maior centro de apoio social a PVHA no Brasil.
Em 1996, Betinho participou da formalização da Carta de Princípios da RNP+, em Brasília, durante o ENONG — contribuindo para um documento estruturante da luta das pessoas vivendo com HIV/Aids no país.
Também esteve na fundação do Fórum de ONG Aids do Estado de São Paulo. Foi diretor secretário na primeira gestão e, por dez anos, vice-presidente e analista de projetos. Coordenou iniciativas de impacto nacional, como o Projeto de Proteção Humana – Brasil e o Advocacy em Saúde, capacitando ativistas e ensinando técnicas de participação e controle social em todo território nacional.
Em 2002, foi cofundador do Mopaids — Movimento Paulistano de Luta Contra Aids. E há algo simbólico nisso: o movimento nasceu na sede do CEFRAN, no Belenzinho — como se o espírito do acolhimento tivesse se expandido para toda a cidade.
No ano seguinte, em 2003, ajudou a fundar a Pastoral da Aids da CNBB. Durante anos, foi coordenador da macrorregião Sul — São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Seu trabalho levou para dentro da Igreja uma compreensão concreta de cuidado e dignidade.
Ele também atuou no Programa Municipal de IST/Aids de São Paulo, como coordenador de planejamento e assessor de coordenação. Sua tarefa principal foi elaborar os prodocs para UNESCO e UNODC — documentos que garantiram sustentabilidade técnica e financeira para o programa.
Sua trajetória inclui atuação em programas sociais desde 1989, com cerca de 80 projetos elaborados e conduzidos, além de participação como palestrante ou observador em 64 conferências nacionais e internacionais. Colaborou com diversas publicações e materiais de referência, como a Revista Bandeiras Positivas, o Jornal Aids & Ativismo, o Guia do Agente de Pastoral, os Boletins SEFRAS e CEFRAN, livros e inúmeros guias de prevenção e adesão.
Em 2006, decidiu deixar o CEFRAN/SEFRAS para atuar em missão na extrema periferia de São Paulo, a convite da missionária Sarah Helena Regan. Este gesto revela sua coerência: quando há dor, ele se aproxima; quando há abandono, ele caminha em direção.
Desde então, dedica sua vida ao Projeto Bem-Me-Quer, que apoia pessoas vivendo com HIV/Aids em extrema pobreza. Em 20 anos de trabalho, colaborou para a aquisição da sede própria, estruturou ações de recuperação da autoestima e saúde, desenvolveu projetos de prevenção que alcançaram milhões de pessoas através das redes sociais e manteve presença ativa em espaços representativos como CNAIDS, GT OG/ONG e outras comissões.
Mesmo sendo reconhecido como ativista político e defensor da saúde integral das PVHA e dos direitos humanos, Betinho jamais se afastou de sua decisão essencial — tomada em 1991 — de atuar junto aos mais pobres vivendo com HIV/Aids. Com ajuda de parceiros e amigos, conseguiu oferecer mais de um milhão de refeições a essas pessoas. Isso o realiza profundamente como ser humano e profissional.