Roseli Tardelli
Jornalista

Jornalista
Roseli Tardelli é jornalista, mestre em Ciências da Comunicação e uma das mais importantes vozes da resposta brasileira ao HIV e à aids. Irmã de Sérgio Tardelli, sua história profissional e pessoal se entrelaça, desde os anos 1990, à defesa da vida, ao enfrentamento do estigma e à construção de novas narrativas sobre a epidemia no país.
Formada pela Faculdade Cásper Líbero, começou a carreira ainda jovem, atuando em veículos como Rádio Eldorado, O Estado de S. Paulo, TV Gazeta, Rádio USP, Rádio Cultura e TV Cultura — onde se tornou a primeira mulher a ancorar o programa Roda Viva. Em janeiro de 1989, ao embarcar rumo à Espanha para estudar na Universidade de Navarra, pelo Programa de Graduados da América Latina, ainda não imaginava que aquele abraço de despedida em seu irmão Sérgio, acompanhado do alerta — “cuidado com essa doença nova chegando ao Brasil” — se tornaria um divisor de águas em sua trajetória e em sua identidade pública.
À época, o país vivia a primeira década de enfrentamento da aids. Sem medicamentos eficazes, sem informação acessível e sem políticas de acolhimento por parte dos planos de saúde, receber um diagnóstico de HIV era, quase sempre, receber também uma sentença de morte. Quando Sérgio adoeceu, em 1993, o preconceito institucional se mostrou de forma brutal: internado, ouviu da representante do convênio que “aquele tipo de doença” não era atendida. Roseli, já ciente das violações que pessoas vivendo com HIV enfrentavam diariamente, tomou a dianteira: deu entrada na Justiça, pagou um cheque caução e transformou a dor privada da família em denúncia pública.
Foi esse gesto — profundamente humano e político — que alterou o curso de sua vida. Sérgio passou a falar abertamente sobre sua condição, concedendo entrevistas e expondo o descaso dos convênios médicos. Muitos parentes e amigos souberam da infecção somente ao vê-lo nos jornais ou na TV. Na primeira audiência, Sérgio chegou a passar mal diante do juiz, que, impactado pela urgência da situação, concedeu vitória em primeira instância. Mesmo já debilitado, sem visão e caminhando com dificuldade, Sérgio ainda encontrou forças para perguntar: “E os outros?”
Essa pergunta ecoou em Roseli como um compromisso vital. Sérgio morreu em novembro de 1994, deixando um vazio irreparável — mas também uma missão. Gentil, culto, sensível, pianista e leitor voraz, ele foi não apenas irmão, mas parceiro de vida. E sua trajetória, marcada pela injustiça e pela coragem de enfrentar o preconceito de peito aberto, tornou-se a base da atuação de Roseli nas décadas seguintes.
Em 1995, o Sesc São Paulo criou o projeto Contato, a primeira grande ação institucional de arte e prevenção da aids no país. Artistas como Tomie Ohtake, Aldemir Martins, Maria Bonomi, Emanoel Araújo e Siron Franco deram forma visual ao tema, levando para as ruas — em outdoors e exposições — as obras que estimulavam diálogo sobre prevenção, uso de preservativos e rompimento do silêncio. Roseli tornou-se parceira essencial da iniciativa, participando de ações em várias cidades e fortalecendo o debate público sobre convênios médicos, direitos e acolhimento. A combinação entre arte, informação e mobilização social se tornaria, a partir dali uma marca permanente de seu trabalho.
Em 1998, foi curadora do I Fórum Aids Imprensa & Cidadania, realizado pela Revista Imprensa, que reuniu — pela primeira vez no Brasil — jornalistas, médicos, gestores, ativistas e pessoas vivendo com HIV. O diálogo intersetorial inaugurou um novo patamar de compromisso público com a epidemia.
Cinco anos depois, em 2003, Roseli fundou a Agência de Notícias da Aids, o primeiro portal jornalístico brasileiro dedicado exclusivamente ao tema, responsável por atualizar diariamente gestores, profissionais de saúde, pesquisadores, ativistas e jornalistas. A Agência, reconhecida internacionalmente, se tornou referência de credibilidade e vigilância crítica na comunicação sobre HIV e aids.
Com o apoio constante da Fecomércio, do Sesc e do Senac São Paulo, Roseli coordenou inúmeros projetos culturais, educativos e artísticos, transformando informações de saúde em experiências capazes de tocar, sensibilizar e prevenir. Produziu espetáculos teatrais — como Depois Daquela Viagem, baseado na obra de Valéria Polizzi — e dirigiu documentários e webséries exibidos em todo o país, como HIV, Aids: as respostas das ONGs do mundo, Youtubers e HIV, HIV 40 anos: Aids e suas histórias e Transmissão Vertical, um assunto proibido. Mais recentemente, lançou Global Village 20 anos, filmado durante a Conferência Internacional de Aids, reunindo depoimentos de ativistas de todo o mundo.
Ao longo de quatro décadas, Roseli acompanhou as transformações da resposta global à epidemia: do pânico inicial à chegada dos antirretrovirais; do preconceito institucional à ampliação do cuidado no SUS; do silêncio forçado à potência das vozes que se recusaram a desaparecer. Hoje, o país dispõe de testagem rápida, tratamento universal, PrEP, PEP e, em breve, de tecnologias injetáveis de longa duração como cabotegravir e lenacapavir. Mas, para ela, nenhum avanço científico é suficiente sem enfrentar o estigma — a maior barreira que ainda persiste.
Roseli nunca silenciou. Nem permitiu que o silêncio fosse imposto aos outros. Seu trabalho diário, sustentado por advocacy em comunicação, produz impacto concreto: evita novas infecções, dá visibilidade às pessoas vivendo com HIV e transforma o olhar da sociedade sobre a epidemia.
Com profunda gratidão, Roseli reconhece a parceria histórica com a Fecomércio, o Sesc e o Senac São Paulo — especialmente Abram Szajman, Ivo Dall’ Acqua Júnior e Luiz Deoclécio Massaro Galina — e a atuação de centenas de trabalhadores da cultura que, ao longo de décadas, ajudaram a responder a pergunta feita por Sérgio em 1994: “E os outros?”
Os outros, hoje, são acolhidos. Os outros têm acesso ao SUS. Os outros são atendidos pelos convênios. Os outros ressignificam suas vidas com informação, arte e cuidado. A luta continua — mas não é solitária.
O legado de Roseli Tardelli é, antes de tudo, um legado de amor, resistência e comunicação comprometida com o direito à vida. A cada projeto, reportagem, fala pública ou obra audiovisual, ela reafirma que o HIV continua entre nós, mas que também continuam — incansáveis — aqueles que constroem caminhos de dignidade, prevenção e acolhimento. Entre eles, Roseli segue na linha de frente, transformando a memória de Sérgio em movimento, em política pública, em arte, em futuro.
No Memorial da Resistência, sua história é lembrada como parte fundamental da memória coletiva da epidemia no Brasil — memória de quem, com coragem e afeto, ajudou a mudar o rumo de tantas outras vidas.