
Mopaids
07/03/2026
O Dia Internacional da Mulher é uma data histórica de mobilização política e de afirmação de direitos. Mais do que uma celebração, o 8 de março representa a continuidade da luta das mulheres contra as desigualdades estruturais que marcam suas vidas: a violência de gênero, o racismo, a desigualdade econômica e as diversas formas de discriminação ainda presentes na sociedade.
Neste momento, o Movimento Paulista de Luta contra a Aids (MOPAIDS) reafirma seu compromisso com a defesa da vida, da dignidade e dos direitos de todas as mulheres — cis e trans — reconhecendo que o enfrentamento ao HIV e à Aids está profundamente conectado às condições sociais, políticas e culturais que estruturam a vida das mulheres.
Isso significa reconhecer que a epidemia de HIV não pode ser analisada apenas como uma questão biomédica. Ela está atravessada pelas desigualdades que organizam a sociedade e que impactam diretamente a autonomia, a segurança e o acesso das mulheres aos seus direitos.
Falar de HIV entre mulheres é falar também de desigualdade, de violência e de acesso a direitos.
A violência de gênero continua sendo uma das expressões mais brutais da desigualdade entre homens e mulheres. No Brasil, milhares de mulheres ainda são vítimas de agressões físicas, psicológicas, sexuais e institucionais, muitas vezes dentro do próprio ambiente familiar.
O feminicídio — assassinato de mulheres motivado por ódio, desprezo ou sentimento de posse — segue sendo uma realidade alarmante. Cada mulher assassinada representa não apenas uma vida interrompida, mas também o fracasso coletivo em garantir proteção, autonomia e justiça.
Essa realidade demonstra que a violência contra as mulheres não é um fenômeno isolado, mas parte de uma estrutura social que ainda tenta controlar seus corpos, suas escolhas e seus modos de viver.
Combater a violência contra as mulheres exige políticas públicas efetivas, redes de proteção fortalecidas e o enfrentamento de uma cultura que ainda naturaliza o controle sobre o corpo e a vida das mulheres.
Da mesma forma, é fundamental afirmar que a luta pelos direitos das mulheres precisa ser necessariamente inclusiva.
Mulheres trans e travestis enfrentam níveis extremos de violência, exclusão social e discriminação em diferentes espaços da sociedade, incluindo o acesso à saúde, ao trabalho e à educação.
A transfobia ainda impõe barreiras profundas à garantia de direitos e coloca muitas dessas mulheres em situações de extrema vulnerabilidade social.
Não haverá justiça social — nem resposta efetiva à epidemia de HIV — enquanto parte das mulheres continuar sendo invisibilizada ou excluída das políticas públicas e dos espaços de proteção social.
Os dados epidemiológicos da cidade de São Paulo demonstram que, embora tenha havido redução no número de novos casos de HIV entre mulheres, a epidemia continua marcada por profundas desigualdades sociais e raciais.
A maioria dos diagnósticos entre mulheres ocorre entre mulheres negras — pretas e pardas — revelando o impacto do racismo estrutural e das desigualdades de acesso à saúde, à renda e às oportunidades.
Esses dados evidenciam que a epidemia de HIV também reflete as injustiças históricas que atravessam a sociedade brasileira.
Além disso, fatores como violência de gênero, dependência econômica, desigualdade nas relações afetivas e dificuldades na negociação do uso do preservativo aumentam a vulnerabilidade das mulheres à infecção pelo HIV.
Muitas mulheres ainda recebem o diagnóstico de forma tardia e enfrentam estigma e discriminação ao longo de suas vidas.
Por isso, o enfrentamento da epidemia não pode ser dissociado da luta por igualdade de gênero, justiça racial e garantia de direitos humanos.
Neste Dia Internacional da Mulher, o MOPAIDS reafirma que a defesa da vida das mulheres passa necessariamente pela garantia de direitos, pela eliminação da violência de gênero e pelo enfrentamento das desigualdades sociais e raciais.
Defendemos políticas públicas que ampliem o acesso das mulheres às estratégias de prevenção, fortaleçam o diagnóstico precoce, garantam cuidado integral em saúde e combatam o estigma e a discriminação.
Reafirmamos também a importância de políticas específicas voltadas às mulheres negras, às mulheres periféricas e às mulheres trans, que continuam sendo desproporcionalmente afetadas pela violência, pela exclusão e pelas desigualdades estruturais.
A luta das mulheres é parte inseparável da luta por democracia, justiça social e direito à saúde.
Defender a vida das mulheres é enfrentar o racismo, o machismo, a LGBTfobia e todas as formas de violência e exclusão que atravessam nossa sociedade.
Neste 8 de março, reafirmamos que nenhuma política de saúde será verdadeiramente eficaz se não enfrentar as desigualdades que tornam determinadas vidas mais vulneráveis.
Seguiremos em luta por uma sociedade em que todas as mulheres — cis e trans — possam viver com dignidade, autonomia, saúde e liberdade.
Porque enfrentar o HIV também é defender os direitos das mulheres.