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Não há conquista completa enquanto houver uma criança vivendo com HIV sem proteção, cuidado e futuro

Após o reconhecimento da eliminação da transmissão vertical do HIV, o Mopaids reforça a importância do cuidado contínuo, do combate ao estigma e da proteção de crianças e adolescentes.

Crianças brincando em um ambiente acolhedor, representando o direito à infância, ao cuidado, à dignidade e à proteção
Toda criança tem direito a uma infância com saúde, afeto, proteção e oportunidades | Foto: Magnific

Mopaids
12/10/2026

Neste Dia das Crianças, o Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids (Mopaids) celebra uma conquista histórica do Brasil, mas lembra que nenhuma vitória nos autoriza a deixar de olhar para quem ainda precisa de cuidado. Em dezembro de 2025, o Brasil foi reconhecido pela Organização Mundial da Saúde pela eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública. O estado de São Paulo também alcançou essa certificação, e a cidade de São Paulo mantém indicadores compatíveis com a eliminação. São resultados que expressam a força do SUS, da ciência, dos profissionais de saúde e de décadas de mobilização da sociedade civil.

Eliminar a transmissão vertical como problema de saúde pública, porém, não significa que nenhuma criança nasça ou viva com HIV. A certificação é concedida a partir de indicadores rigorosos, com taxas muito baixas de transmissão e ampla cobertura de pré-natal, testagem e tratamento. Não significa transmissão zero. E é justamente para as crianças que permanecem por trás desses indicadores que queremos chamar atenção.

Segundo o Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, 6.819 crianças foram notificadas como expostas ao HIV no Brasil em 2024. Dessas notificações, 2.235 ocorreram no Sudeste, e São Paulo respondeu por 14,1% do total nacional. Também continuam existindo diagnósticos de aids entre crianças menores de 13 anos. Os números diminuíram de forma expressiva nas últimas décadas, mas os registros permanecem.

Esses dados não diminuem a conquista brasileira. Mostram por que ela precisa continuar sendo defendida. Por trás de cada número existe uma criança que precisa de diagnóstico no tempo certo, tratamento adequado à idade, medicamentos disponíveis, acompanhamento contínuo e um SUS capaz de cuidar dela durante toda a infância e a adolescência. E cuidar não pode significar apenas controlar a carga viral. Criança vivendo com HIV precisa brincar, estudar, fazer amigos, receber afeto e crescer sem que seu diagnóstico seja transformado em vergonha, segredo ou motivo de discriminação.

O cuidado também precisa proteger a saúde mental, a confidencialidade e o direito à informação de maneira adequada a cada etapa da vida. Na adolescência surgem novos desafios: adesão ao tratamento, autonomia, sexualidade, relacionamentos, prevenção, revelação do diagnóstico e medo da rejeição. Nenhum adolescente vivendo com HIV deveria atravessar tudo isso sozinho.

Aleitamento: um debate que precisa ser enfrentado

Neste Dia das Crianças, o Mopaids também considera necessário colocar sobre a mesa um tema que mobiliza mulheres vivendo com HIV, pesquisadores, profissionais de saúde e movimentos sociais: a amamentação. O debate científico mudou e precisa ser acompanhado com responsabilidade. Em dezembro de 2025, a Organização Mundial da Saúde atualizou suas recomendações sobre o manejo do HIV e reforçou uma abordagem centrada na pessoa, na escolha materna e no bem-estar da criança. No Brasil, entretanto, a recomendação oficial continua sendo de que mulheres vivendo com HIV não amamentem, mesmo com carga viral indetectável, e o SUS deve garantir fórmula infantil e acompanhamento às crianças expostas.

O Mopaids ainda não tem uma posição fechada sobre uma eventual mudança nessa recomendação. Mas temos princípios dos quais não abrimos mão. Somos a favor da ciência, do debate público qualificado e da avaliação cuidadosa das evidências. Somos a favor de ouvir as mulheres vivendo com HIV, respeitando suas experiências, desejos e direitos. E somos, com a mesma firmeza, a favor da máxima proteção e segurança das crianças. Não queremos um debate conduzido pelo medo ou pelo preconceito, mas também não queremos que riscos sejam minimizados ou mudanças sejam antecipadas sem respaldo suficiente.

Esse debate precisa envolver Ministério da Saúde, pesquisadores, profissionais do SUS, mulheres vivendo com HIV, pessoas que adquiriram o vírus por transmissão vertical e movimentos sociais. Porque autonomia exige informação, escolha exige condições e direito exige política pública. Nenhuma mulher deveria ser culpabilizada por desejar amamentar, assim como nenhuma deveria ser pressionada a fazê-lo. E nenhuma decisão sobre aleitamento pode deixar de considerar a proteção da criança. Os direitos das mulheres e os direitos das crianças não precisam estar em lados opostos.

Nenhuma criança para trás

O Brasil mostrou que é possível mudar a história da transmissão vertical do HIV. Uma geração inteira nasceu em um país muito diferente daquele dos primeiros anos da epidemia, quando crianças vivendo com HIV eram afastadas de escolas, famílias enfrentavam o medo e o preconceito, e o diagnóstico muitas vezes significava uma infância atravessada pela exclusão. Não queremos voltar a esse tempo, mas também não podemos agir como se esse passado estivesse definitivamente superado.

Neste Dia das Crianças, o Mopaids reafirma uma ideia simples e fundamental: uma criança vivendo com HIV é, antes de tudo, uma criança. Tem direito de viver, brincar, estudar, fazer amigos, receber cuidado e afeto, sonhar, crescer sem medo e construir uma vida que não seja definida pelo HIV.

Nossa luta é para que cada vez menos crianças adquiram o vírus. Mas, enquanto houver uma única criança ou adolescente vivendo com HIV, ela precisa saber que não está fora da nossa luta.

Porque Dia das Crianças acontece uma vez por ano. Os direitos das crianças precisam ser defendidos todos os dias.