
Mopaids
19/09/2026
Há partidas que deixam um vazio. Outras, além da dor, deixam uma responsabilidade histórica. A morte do Dr. Paulo Roberto Teixeira impõe as duas coisas.
O Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids (Mopaids) recebe com imensa tristeza a notícia da partida de um dos homens que ajudaram a mudar o destino da epidemia no Brasil. Paulo não foi apenas testemunha da construção da resposta brasileira ao HIV e à aids. Ele foi um de seus fundadores, um de seus pilares e uma de suas consciências políticas.
Quando a aids chegou cercada pelo medo, pelo preconceito, pela desinformação e pela morte, Paulo escolheu não se afastar. Em 1983, quando o poder público brasileiro ainda não compreendia plenamente a dimensão da epidemia, ele ouviu as reivindicações do movimento social LGBT, dialogou com as populações mais atingidas e ajudou a criar, em São Paulo, o primeiro programa público de enfrentamento à aids do país e uma das primeiras respostas estruturadas da América Latina.
Naquele momento, essa decisão significava muito mais do que organizar um serviço de saúde. Significava afirmar que aquelas vidas importavam. Que pessoas adoecidas, muitas delas abandonadas pelas próprias famílias e condenadas pelo preconceito social, tinham direito ao cuidado, à informação, à dignidade e à presença do Estado.
Paulo compreendeu muito cedo algo que ainda hoje precisa ser repetido: a aids nunca foi apenas uma questão biomédica. Sempre foi também uma questão política. Uma epidemia atravessada pela desigualdade, pelo racismo, pela LGBTfobia, pela pobreza, pelo machismo e por todas as formas de exclusão não poderia ser enfrentada apenas com medicamentos. Era necessário enfrentar também o silêncio, o abandono, a discriminação e a tentativa de decidir quais vidas mereciam ser protegidas.
Sua trajetória ajudou a transformar tratamento em direito, prevenção em política pública e participação social em parte indispensável da resposta à epidemia. Paulo esteve ao lado da ciência, mas nunca separado da realidade das pessoas. Defendeu o SUS, o acesso universal aos antirretrovirais, a redução do preço dos medicamentos e o direito dos países pobres de tratar suas populações. Em um cenário internacional que considerava inviável levar tratamento às nações em desenvolvimento, ele sustentou que nenhuma vida poderia valer menos por causa do lugar onde havia nascido.
Essa posição exigiu coragem. Paulo enfrentou interesses econômicos, questionou o poder das grandes indústrias farmacêuticas e participou da defesa do licenciamento compulsório de medicamentos quando a proteção da vida assim exigisse. Sua atuação ajudou a projetar o Brasil como referência mundial no enfrentamento à aids e demonstrou que uma política pública construída com ciência, coragem política e participação popular pode mudar o curso da história.
Mas talvez uma das maiores grandezas de Paulo tenha sido compreender que nenhuma resposta seria legítima se fosse construída sem as pessoas diretamente atingidas pela epidemia. Ele não tratava a sociedade civil como figurante nem como presença protocolar. Reconhecia nos movimentos sociais conhecimento, autoridade e capacidade de transformar políticas públicas. Sabia que ouvir quem vive a realidade do HIV não era uma concessão do Estado: era uma obrigação democrática.
Por isso, a sua morte atinge profundamente ativistas, profissionais de saúde, pesquisadores, gestores e todas as pessoas que ajudaram a construir a resposta brasileira à aids. Parte um sanitarista, um militante da democracia e um defensor intransigente da dignidade humana. Parte um homem que ajudou o Brasil a escolher o cuidado quando tantos defendiam o abandono.
O Mopaids se solidariza com seus familiares, amigos, companheiros de caminhada e com todas as pessoas que tiveram suas vidas atravessadas por sua presença, por suas decisões e por seu trabalho.
Neste momento de dor, não queremos transformar Paulo apenas em uma lembrança respeitável ou em um nome registrado nos livros. Seu legado precisa permanecer vivo nas políticas públicas, nos serviços de saúde, na defesa do SUS, no acesso universal ao tratamento e à prevenção, na participação social e no enfrentamento permanente ao estigma e à discriminação.
Honrar Paulo Roberto Teixeira é recusar o desmonte da resposta brasileira à aids. É não aceitar retrocessos. É defender a ciência diante do negacionismo, o cuidado diante do abandono, os direitos humanos diante da violência e a vida diante de qualquer interesse econômico ou político.
A história da aids no Brasil não pode ser contada sem Paulo. E o futuro dessa resposta também não poderá ser construído sem os princípios que ele ajudou a estabelecer.
Sua partida nos dói profundamente. Seu legado nos convoca.
Dr. Paulo Roberto Teixeira, presente!
Hoje, amanhã e em cada luta em defesa da vida.
Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids — Mopaids